
"LADY ZU - RAINHA NO CONIC"
Musa das discotecas, Lady Zu arranca suspiros ao passar pelo Setor de Diversões Sul. Hoje, ela canta com o rapper Gog no Brasil Telecom
(Reportagem publicada no jornal "Correio Braziliense" (Brasília/DF), de 23/Mar/2009)
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Sérgio Maggio
Da equipe do Correio
Fotos: Cadu Gomes/CB/D.A Press
Legendas: (esq.) Entre ícones da arte black, ela reafirma a negritude: pesquisadora
(dir.) Despojada e cheia de humor, Lady Zu faz pose na porta de emergência da igreja evangélica: “mata o véio”
Lady Zu estava bem à vontade quando a equipe do Correio chegou para a entrevista. Cabelo preso, sem maquiagem, macaquinho branco básico e blusa cor-de-rosa. Assistia atenta ao DVD Cartão-postal bomba, do rapper Gog, e nem imaginava que a intenção era levá-la para a plataforma superior do Conic a fim de fotografá-la. Mesmo espantada com o convite, reagiu de pronto ao desafio bem no clima “transformação”. Um vestidinho branco, dois casacos (um mel cheio de babados, outro lilás “cheguei”), um brinco emprestado, gloss, lápis de olho e Zuleide Silva virava a rainha Lady Zu, ícone das pistas de dança do Brasil no fim dos anos 1980.
Assim, poderosa, ela sobe ao Conic movimentado às sextas-feiras. Logo, espalha-se um burburinho. Enquanto posa para as fotos, daquele jeito indefectível, o povo do salão de beleza se alvoroça.
— É Lady Zu, avisa uma provável manicure.
De olhar incrédulo, uma senhora de aparentes 60 anos levanta-se da cadeira do jeito que está: com o cabelo cheio de bobes coloridos. Lady Zu dobra-se em gargalhada quando sabe da cena. A partir daí, fica difícil entrevistá-la. Gog, que lança hoje o potente DVD Cartão-postal bomba, às 21h, no Espaço Brasil Telecom, leva a convidada pelos braços.
— Todo mundo quer conhecer Lady, avisa.
— Estou sendo disputada entre tapas e beijos, derrete-se.
É preciso mesmo “roubar” Lady Zu para um dos vãos do Conic. Ali, sob o olhar da escudeira Karen Sayuri, ela voa lá para a onda da discoteca, em que era rainha absoluta, pulando em segundos para os anos longe da mídia.
— Meu amoooooorrrrrrrr (faz bico e voz de travesti), eu não tive tempo de sofrer. Tive que correr atrás, batalhar e descobrir caminhos. Agora, que dói, dói. Tem hora que você pergunta: “Cadê minha coroa, cadê meu cetro?” Mas não há tempo pra ficar sentada à beira do caminho, ensina.
Dona de sucessos que não se apagam da memória, como A noite vai chegar, Só você e Hora de união, Lady Zu não ficou parada nos hits do passado. Pesquisadora da black music nacional e internacional, ela não deixou de colocar novidades nos shows. Em 2002, lançou o ótimo CD Number one (Abril Music), em que dialoga com r&b, samba-rock, soul, hip hop, funk melody. Mas a gravadora abriu e fechou num piscar de olhos.
— A matriz da black music brasileira é o samba. Não tinha como não me interessar por isso. Sou negra, não sou?
Anteontem, ela fez show no Cafetina e mostrou que está tinindo musicalmente. Ficou impressionada com uma garota que cantarolava todas as letras dos sucessos. Soube depois que a mãe da menina não tirava os discos da vitrola. Ficou feliz também quando o apresentador Luciano Lima (da Rádio Cultura) revelou que nunca esqueceu o clipe de Só você, no Fantástico.
— Ela estava na Quinta da Boa Vista, com um macacão colado no corpo. Adorava, lembra o fã confesso.
— Fiquei emocionado porque nem eu lembrava mais. Não tenho esse clipe, lamenta.
Com média de oito shows mensais, de boates gays a praças, Lady Zu reúne público eclético, que ela faz questão de enumerar.
— Tem os negões que curtem a boa black music, o povo da disco que não esquece A noite vai chegar, os gays, que são fiéis e carinhosos, e uma juventude que chega com essa nova sonoridade de Number one.
Recentemente, ela foi a uma cidade de interior e viu o público com capas dos vinis nas mãos. Teve que improvisar canções que não estavam na cota dos sucessos do passado, mas eram solicitadas no calor da hora. Em torno desse show, um sentimento comum a todas as apresentações.
— Há um respeito muito grande. Sei que tenho o meu lugar na história da black music nacional. Agora, preciso ocupar outros espaços. Não quero fazer um disco por fazer. Reunir 14 músicas quaisquer. Quero fazer uma pesquisa, buscar uma unidade.
A exigência vem de menina que começou a cantar com repertório selecionado de sambas. No primeiro programa de auditório, interpretou Triste madrugada (ela cantarola: “Triste madrugada foi aquela”). Depois Conto de areia, de Clara Nunes (continua a capela: “É água no mar, é maré cheia, ô/mareia, ô”).
— Passava de um programa ao outro. Bolinha, Raul Gil. Era uma menina de 8 anos. Ganhava prêmios. Resolvi então parar. Voltei aos 16. Fui cantar em circo, totalmente sambista, na linha Zuleide da Silva. Aí, fui descoberta e parei na Polygram. Aos 17 anos, veio A noite vai chegar. Um sucesso que não tinha estrutura para enfrentar. Vendi 1 milhão de discos. Estava em todos os programas. Do Chacrinha, que me batizou de Donna Summer do Brasil, a rainha da discoteca, ao Fantástico. Ganhei dinheiro, fama. Depois, tudo passou…
Dona de um corpinho de menina, ela não esconde a vaidade de estrela.
— Meu amoooooorrrrrrrr (faz de novo bico e voz de travesti), cadê o ventinho? Bem aqui embaixo do vestido branco, brinca, imitando a clássica pose de Marilyn Monroe no filme O pecado mora ao lado.
Sexy no papel de Lady Zu, esparrama-se na porta vermelha, saída de emergência da igreja evangélica, para mais uma sessão de fotos.
— Calma, mulher. Assim você mata o véio, diz um transeunte.
Depois, linda e loira, segue dando o segredo da juventude.
— Fumo, areio as panelas e cuido das crianças, gargalha Lady Zu, esplêndida, mãe de três filhos e feliz em seu terceiro casamento.
Ela é assim, como canta a rapper Hannah Lima no disco Number one: “Ninguém tira com Lady Zu”.
CARTÃO-POSTAL BOMBA
Show de lançamento do DVD de Gog, com a participação de Lady Zu, Ellen Oléria, Angel Duarte, MPB Black, Kiko Peres, Mascote, DJs Elyvio Blower, Raffa e Leandronik. Hoje, às 20h, no Espaço Brasil Telecom (SHTN, Tc. 1, ao lado do Palácio da Alvorada; 3306-2959). Ingressos: R$ 30 (ganha o DVD) e R$ 15 (meia). Venda antecipada na Só Balanço (Shopping Boulevard, Conic). Não recomendado para menores de 16 anos.
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